domingo, 2 de agosto de 2009

Útero

Enquanto algo se revirava em sua barriga devido a uma má digestão, pensou em como se sentia segura ao lado dele. O soldadinho de chumbo não pertence mais a qualquer bailarina que dance e encante por aí. Ao invés disso, segura a mão de uma boneca desajeitada em seus vestidos de tecidos alegres que camuflam a dor que é amar.

Tomando Coca-Cola na esperança de arrotar todos os seus medos e afastá-lo por não ser perfeita, disfarçava a vontade real. A de que ele a amasse pelo que ela é. Confusa, variável, muitas. Uma boneca cheia de manias e defeitos de fábrica, com a garantia de manutenção vencida.

Voltou pra casa de mãos dadas no sol que só piorava seu estado.
Não quis comer, não quis beber... Só queria estar de volta para os braços dele e adormecer falando coisas sem sentido enquanto ganhava carinho nas costas.



Não queria nunca mais acordar desse sonho que parecia tanto com uma volta ao útero quente, molhado e acolhedor do qual os humanos vêm.
E se acordasse, queria vê-lo ao seu lado em cada despertar.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pra quem tem asas

Voar por aí sem rumo.

Já disse e repito que sou uma boneca de pano.
Não tem louça, porcelana ou nada que quebre por aqui.
Muito menos asas.

Será que tem?

Não sei.
Sei que sinto que fiz a escolha certa quando me cabia não partir corações e isso deve fazer de mim algo mais que uma escultura de gelo.


Sabe aquelas asas que eu disse que não tinha?
Me faltaram hoje, quando acordei do sonho.
Mas eu caí na realidade em que via uma outra boneca sorrir feliz me chamando pra ser madrinha dos bonequinhos de um certo bolinho de casamento.

Qualquer coisa, derreto minhas asas em cera e meu gelo em copos de vodka.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Too early for that dress

Levantei e me olhei no espelho.
Mais uma vez encarando a maquiagem borrada de uma noite de insônia.
Não queria levantar e encarar o dia que se tornava mais cinza a cada passo dado em direção ao inesperado.

Não sei a solução dos meus dias. Tento encará-los como problemas matemáticos previsíveis mas estou cada vez mais confusa.
Sou apenas uma boneca de pano numa cidade de concreto desejando que a água derrube tudo o que exista e me leve pro fundo, bem fundo... Talvez então eu renasça como uma flor de Lótus.


Levantei e troquei de roupa.
Qual será a cor que você gosta em mim, Senhor do Fogo?
Quando soltará as chamas que queimarão todos esses panos desnecessários?

Ando perdendo as esperanças.
Cansei de desfiar esse short esfarrapado.


[os pensamentos de uma boneca que anda se escondendo dos seus sentimentos]

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Eu ainda sou... eu?

Olhei-me na parede branca.
Estava ali, a sorrir, sem espelho e sem moldura.
Eu me via e me perguntava se era eu mesma, Annabelle, ou a alguma outra criação de uma mente perturbada pela insônia.
Eu me via inspiração relutante há meses, anos, séculos.

Talvez a parede fosse um bom lugar pra me ver.
Branca e pálida como a minha quase morte.

De repente, eu não sei mais quem sou.
Não consigo mais entender no que me transformei.

Acho que essa é a hora em que a boneca não cabe mais na casinha.

Sou um monstro esmagando minha cidade de brinquedo.
Meus passos são maiores que meu equilíbrio.
Acho que sou parente do Chucky, o boneco assassino.
Isso explicaria meus desvios psicológicos.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Bonecas também tem TPM

A senhorita Pecinha de Lego recentemente reclamou que minha criadora não me deixa mais falar. Acho que ela calou seus pensamentos para não dizer besteiras e se arrepender, mas são desses pensamentos que me alimento.

Hoje resolvi libertar sua mente.

Por que será que nossos amores não podem nos dar o que nós queremos exatamente quando queremos? Por que eles têm que agir da forma mais antônima possível?

Eu sou uma boneca de pano que é sensível como se fosse de porcelana. E depois de ter sofrido por coisas piores nas mãos do Baco, do Haziel, do Espantalho, hoje o que me faz mal são as feridas não cicatrizadas.

O que me faz mal é pensar que o erro é todo meu, que os defeitos são todos meus. E é essa vontade de me encolher até que o mundo me engula que me faz querer perder o chão e gritar para que todos os amores de todas as bonecas-meninas-mulheres ouçam:

“Perceba que o que eu quero é atenção, paciência, carinho”

É muito difícil estar na cabeça de uma criadora com TPM.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Por detrás das cortinas (ou Espaço OFF*)

*Sim, sou uma pessoa viciada em estudos de linguagem videográfica e cinematográfica.

Tudo começou com uma letra de música, um mensagem no celular.

Numa conversa em off, Annabelle revela-se em sua criadora e explica o porquê da escolha do codinome Amor àquele que o porta.

- Eu aaaaaaaaaamo essa música! – diz Amanda, abrindo um sorriso repleto de lembranças.

- Eu também.

- Uma das primeiras mensagens que você mandou pro meu celular foi dizendo que estava ouvindo Trouble e me dando um beijo. E que o beijo tinha demorado tanto que a música acabava. – rindo.

- Nossa.

- Lembra disso?

- (rindo) Não. Você sabe como é a minha memória...

- Pois eu lembro. Acho que ainda tenho ela. Espera?

- Claro!

- Achei. Diz o seguinte: “A música ta tocando na FM Sul...rs. Tinha que ouvir antes de dormir. A propósito, boa noite e beijo bem gostoso na boca! Demorou tanto que a música acabou”. E tinha uma antes dessa que dizia “to ouvindo Trouble – Coldplay”. A data é... hum... dia vinte de setembro de dois mil e seis. (Sorrindo fartamente) Lembrou agora?

- (gargalhando) Não. Mas só pode ter sido eu mesmo. Só eu mando mensagens desse tipo.

- Tá vendo? E a data? Você viu? (gargalhada) Um mês e você já estava me mandando mensagens assim.

- Uhum. (risos) Claaaaaaaaro. Mas... você acha que eu me apaixono rápido?

- Acho que não. Acho até que você demora demais.

- É que você disse “um mês e você já estaVa”...

- Eu me apaixonei mais rápido do que você.

- Mentiiiiiiiira.

- Quanto a mensagem, eu tô falando do teor erótico. Quando li, imaginei o beijo. Só isso. Mas eu me apaixonei muiiiiiiito mais rápido que você, sim. Nem vem. Quer ver? Me diz. Quando você se apaixonou por mim?

- Voltando pra casa eu já estava apaixonado. Senão não teria ido te ver.

- Teria sim... Você ainda não tinha o que queria... (risos enigmáticos).

- (correspondendo ao sorriso) Verdade. Não sei dizer quando foi. Mas foi antes de você.

- Eu acho que você teria ido pelo mesmo motivo que eu também queria te ver. Tinha sido bom e eu queria que continuasse sendo. Sem contar que eu estava louca por você. Mas a paixão que eu to falando é aquela vontade incontrolável de demonstrar carinho... e não simplesmente desejo, que era o que a gente sentia antes daquele dia. Pelo menos era o que eu sentia. Mas eu me apaixonei antes! Certeza! Eu me apaixonei na terceira vez. Cara, você não se apaixonou antes disso... (risos) Você só queria me comer antes disso.

- Moça, na terceira vez ainda foi no festival. No último dia.

- Nãoooooooo, eu tô falando de quando você foi lá em casa...

- Huuuuuuuuuuuuuum. Tá bom, Mam, você foi antes. Sua chata! Insuportável!! (risos)

- Obrigada pelos elogios (risos). Eu me apaixonei porque você foi lá em casa me ver. Achei que ninguém no mundo faria aquilo.

- Sério? Eu sou muito impulsivo mesmo...

- Sério.

- Por que?

- Porque eu estava numa fase em quem precisava ser resgatada pelo romantismo. E foi por isso que você ganhou o codinome de “Amor” para Annabelle. Porque você me resgatou.

- Que bonitinho! Fiquei feliz! Mais feliz! Mudou meu dia...

- E você estava triste?

- Não. Mas agora o dia ficou melhor.

- (muito meiga) E é tudo verdade...

- Eu sei. Se não você não diria.

- Você nunca se perguntou por que era o Amor?

- Não. Pensei que era porque você me amava... Achei errado, pelo visto. Agora ficou mais bonito. Eu sou desligado, né?

- Não deixa de ser verdade. Aquela era a minha fase Augusta dos Anjos. Eu sou uma pessoa sugestionável e talvez a frase que o Espantalho disse pra mim quando me conheceu tenha influenciado para que essa fase começasse. Ele disse "não quero te envolver nas minhas asas de demônio" e eu respondi "e se eu quiser me envolver?". Foi assim que começou minha fase introspectiva, racional, carnal. Quando eu te conheci, estava louca para acreditar nos sonhos, nos sentimentos, nas pessoas... Você, com aquele gesto de ir até a minha casa, me fez acreditar que ainda existiam coisas boas no mundo. Que eu ainda tinha coração. Que eu não tinha esquecido como era amar e ser amado da mesma forma. Por isso você virou o Amor.

- Hum, entendi. Perfeitamente.

- (risos) Como é que uma pessoa responde a um texto desse com apenas três palavras?

- Respondendo, ué. O que eu ia falar achei que não era ideal. Então é melhor responder com três palavras.

- Fala. Por favor. Se não vou ficar cheia de paranóia.

- Não. O clima aqui ta muito bom para ser estragado.

- Eu preciso que você fale.

- Tá... Como que uma pessoa se deixa envolver pelo “demônio”? E deixa que ele mate tudo de bom que há. Você tem muita sorte. Poderia ter pego um sacana qualquer que fizesse mal a você ou reforçasse suas certezas no momento.

- (risos) Entendo sua pergunta. E a minha resposta é... alguém que está louca para se sentir amada se deixa envolver por qualquer coisa. Era assim que eu estava na época. Eu lutava há anos por alguém que nunca tinha feito um esforço para me ver e me entreguei ao primeiro que parecia ser uma boa pessoa. Mesmo ele me alertando, eu queria me sentir desejada, procurada, amada.

- Tudo isso porque você esqueceu que seu nome é Amanda. E o significado que esse nome tem.

- Tudo isso porque eu nunca acreditei que deveria ter esse nome. (gargalhada)

- Chata, incrédula. Vou te bater.

- Bater, é? (risos) Uuuuuuuui.

E abraços, carinhos, beijinhos fizeram o rumo da conversa se desviar para mais abraços, mais carinhos, mais beijinhos. E algumas tantas declarações de amor em silêncio, porque tudo que havia para ser dito tinha sido dito.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Felicidade estranha

A boneca está feliz.

Fiquei horas parada pensando em como contar a felicidade dela, mas a minha TPM não permite.

Ela está feliz e é só.
Tem motivos, mas o principal motivo é inexistente.

Seu coração continua ocupado, restrito, apaixonado, doado ao Amor. E ela acha que isso finalmente foi reconhecido. E a ligação que estabelece o contato, a troca, entre os dois lados voltou a se estabelecer.

É uma felicidade assim sem nome, sem quê, sem definição.
Annabelle está feliz por estar feliz.

...e felicidade não é a melhor das inspirações para a boneca.

Pintou hoje um sorriso de saudade.
Inclinou a cabeça pedindo carinho e se perdeu no nada de seus pensamentos.